Just Strange ..

Olá estranho. Era mesmo de ti que eu hoje precisava, era mesmo contigo com quem eu tinha de falar. Não sei qual é o teu sexo, que idade tens, muito menos onde moras. Mas sei que me estás a lêr e que só por isso, já vale todas as palavras que escrevi e continuo a escrever. Ás vezes é mais fácil falar assim, para quem não sabemos quem é. E tu não sabes, mas eu digo-te agora, que sou complicada, que é difícil para mim abrir-me ao ponto de contar o que se passa dentro do meu coração. Não porque não tenha pessoas que aguentassem tais palavras, porque tenho, mas sim porque falavam e o que eu mais quero é que me oiçam e sorriam. Ou acenem que sim a tudo o que digo. É isto o que não me faz ligar a alguém e sentar-me no café e contar-lhe tudo de mim. É complicado quando nos conhecem ao ponto de fazer julgamentos, ainda que não os profiram e nos digam na cara, há sempre quem pense com o coração. E tu não és assim, porque me estás a lêr e talvez estejas disposto a continuar a fazê-lo até ao fim. E por isso deixa-me partilhar um segredo contigo: já gosto de ti. Precisava de ti sem saber que precisava. Percebi isso quando pensei em escrever-te a ti, mesmo que saiba que não exista esse alguém. Com outra pessoa, noutro local, a até noutra cidade talvez não conseguisse. Mas hoje estou a conseguir e por enquanto já te agradeço por isso. Talvez tenha de entender que só por eu dar de mim aos outros não tenho de receber algo dos outros em troca. Ou que as pessoas pensam cada vez mais nelas próprias e esquecem-se dos outros, que se preocupam apenas com as suas desilusões porque lhes faz doer, mas esquecem-se que há dores maiores. Essas que fazem realmente doer, esmagam o corpo, esburacam o coração ao ponto de ele partir-se em estilhaços nas nossas mãos, e o pior disso ? Não têm ninguém que o conserte. As outras, se calhar têm esse alguém  e mesmo assim preocupam-se porque lhes dói. Dor é quando nos partem o coração e não temos ninguém que junte os pedaços ao nosso lado, não é parti-lo e ter essa pessoa que o partiu, talvez sem querer, a consertá-lo, a cuidar dele, até que volte ao ponto de partida. E isso incomoda-me, quando choram pela mínima dor sem se preocuparem com a dor dos outros. Sem estenderem um braço a alguém, mas esperarem que uma pessoa o faça a si. As nossas acções não têm de ser baseadas na troca de outras, se as fazemos é porque queremos, não porque esperamos que alguém o faça de volta. Continuo a conversar contigo e tu ouves-me muito atento sem dizer nada, talvez acenando que sim. Não sabes nada de mim, apenas lês o que escrevo e mesmo assim permaneces sem nada dizer. Começas a confiar em mim, nas minhas palavras, mesmo sem o saberes. E eu estou a dar de mim. Quase sem perceber que há alguém que talvez recolha esse pedaço. E essa pessoa és tu e se eu soubesse quem és, se soubesse onde moras, como te chamas talvez um dia te batesse à janela e te disse-se: anda dai, vamos beber ou café ou passear pela cidade, porque há algo que ainda não te contei. E tu talvez viesses, talvez me ouvisses e acenasses que sim com a cabeça. E obrigada estranho, ia sentir-me em casa.