acordei.
não conseguia abrir os olhos, tal eram as olheiras e o inchaço que os soluços chorosos provocaram durante a noite. decidi ir, às cegas, à casa de banho, lavar a cara e acordar do pesadelo vivido e encarnado. após umas tantas ou quantas quedas, desastres e objectos no risco iminente de quebrarem, consegui entrar na casa de banho e lavar o meu rosto cansado e gasto. e, num súbito acesso de perplexidade, desejei nunca o ter levado água aos olhos, muito menos abri-los! o espelho que se apresentava à minha frente enojava-me. aquela não podia ser eu. aquele trapo de gente, gasto e sujo, usado pelos outros, sofrido e magoado, não era eu. não podia ser! o espelho reflectia alguém que não era eu. ou seria mesmo a minha imagem reflectida no espelho e eu apenas quereria negar a realidade? uma raiva, cega e asquerosa, ardia-me nas veias e, num súbito ataque de adrenalina, num impulso nunca antes conhecido, ou testado, agarrei no frasco de perfume que estava no lavatório e atirei, sem pensar duas vezes no assunto, contra o espelho. vi a minha imagem reflectida a abrir fendas e a quebrar-se numa violência que eu desconhecia e, ao sabor do vidro quebrado, os meus olhos entravam em transe, provocando novamente o choro. pela quinta vez, em menos de 48 horas, estava a chorar. os pedaços de espelho faziam ricochete e vinham ao encontro do meu corpo desalmado e agora, lavado em lágrimas. saí a correr da casa de banho, sem me importar com o cheiro excessivo do perfume, espalhado nas paredes e no chão, ou dos fragmentos de vidro meticulosamente caídos no solo que os meus pés pisavam. dirigi-me ao espelho, grande e sombrio, do meu quarto. apreciei a minha figura, uma outra vez. os espelhos não mentiam, eu é que não quisera acreditar na realidade. a minha imagem estava a degradar-se mais depressa do que aquilo que se possa imaginar. os contornos iam-se moldando novamente, mas com umas formas feias e gastas. agachei-me diante o espelho e encostei-me à parede. vasculhei o vestido, daquela noite, que estava extremamente gasto do teu perfume. procurei-o no meio daquela bagunça em que o meu quarto se encontrava. e achei-o. em acto contínuo e desesperado, agarrei-me depressa a ele e tapei a cara com ele. e assim fiquei durante imenso tempo, a absorver, mais uma vez, o perfume doce e escaldante que o casaco emanava. e as lágrimas corriam-me pela face, beijando-me os lábios e infiltrando-se no tecido sujo e delicado da sua peça de roupa. tinha de aguentar esta dor sozinha. era obrigada a suportá-la e a escondê-la de todos, ocultar o que sentia ao Mundo. no fundo, as pessoas julgar-me-iam se abrisse o meu coração e achariam que eu estava apenas a fazer-me de coitadinha, para todos terem pena da minha pobre figura e darem-me toda a atenção do mundo. e eu não queria isso! de forma alguma. apenas precisava de apoio e compreensão por parte de um ser humano reles, mas amável. farta de chorar, farta da minha mente e dos meus pensamentos mórbidos, dirigi-me novamente à casa de banho. não tive cuidado absolutamente algum ao entrar, queria lá saber se me magoava com fragmentos do espelho ou não! dirigi-me ao espelho desmembrado. o desespero era tal que nem dei tempo ao meu corpo de respirar e absorver o que se estava a passar na imaculada casa de banho. depois, olhei uma última vez num bocado de espelho que não fora partido e a minha imagem reflectida lançava-me um olhar malicioso e delirante. olhei novamente para o meu corpo, depois para o pedaço de espelho que as minhas mãos seguravam com força e segurança e olhei novamente para o espelho. sim, era aquilo que eu queria fazer, sem dó, nem piedade. aterrorizada com a cena, olhei-me pela última vez ao espelho, e não, eu não me voltarei a quebrar, não deste jeito, nunca mais, apertei aquele pedaço de espelho, que traçara mais uma linha da vida na minha mão, e essa linha será a ultima de minhas lágrimas, a ultima dos meus sufocos! a nova linha de luta *
e perdida na noção do tempo e do espaço,
gritei bem alto, a plenos pulmões, a raiva que sentia em mim!
(inventado)
